Eu quero silêncio.

     
       Barulheira geral em sala de aula. Conversas paralelas, risadas, cantorias. Bolinhas de papel voam de cá pra lá e até mesmo um aviãozinho (daqueles que eu nunca consegui fazer) flutua lentamente pela sala até pousar na mesa da professora, para a alegria dos meninos sentados ao meu lado. Eu reviro os olhos e tento me concentrar no livro à minha frente, provavelmente o quarto ou quinto de Harry Potter.
       Era o quinto ano. Meu gênio e minha obsessão por controle ainda estavam por ser controlados (se é que eu posso dizer que hoje estão) e, pra completar, eu era a líder de sala. Era minha responsabilidade mandar naqueles diabinhos que não conseguiam ficar calados entre a troca de professores – ou pelo menos, era assim que a minha versão de dez anos encarava o título.
       A professora entra em sala, a aula de matemática já deveria ter começado a pelo menos quinze minutos, mas os aborrecentes do nono ano prenderam nossa mestra por tanto tempo que já havíamos perdido quinze minutos de aula, dos quais cinco com certeza aquela senhora baixinha havia perdido tentando chegar até a nossa sala com seus passinhos curtos. Era uma escola enorme, afinal.
       Eu amava aquela sala. Passara os últimos três anos esperando pelo momento em que alcançaríamos o fim do corredor,e ainda podia me lembrar do percurso que fazia, dia após dia, a mão direita correndo pela parede, acompanhando com os olhos as aulas que se passavam nas salas que faltavam para eu chegar ali. E agora, aqui estava. Não fazia tanta diferença assim, na verdade. As paredes tinham a mesma coloração que todos os outros recintos da escola, a mesma pintura emoldurada do nosso fundador repousava acima do quadro branco, até a maçaneta da porta era de mesmo fraco metal (todos os anos quebrávamos pelo menos uma). Mas aos meus olhos, aquela sala era diferente de todas as outras. Ela representava a liberdade.
       Algumas decisões importantes seriam tomadas até o final daquele ano, e mesmo estando na metade do primeiro trimestre, eu já sentia isso. A possibilidade de mudar de escola me excitava, e mesmo que não se concretizasse, um novo mundo se abriria pela minha frente. O sexto ano representava o fim do ensino fundamental II, e o fim do corredor. Literalmente, havia ali uma virada na minha vida.
       Mas voltemos por um minuto à situação em que eu estava. A professora já chegara e minhas tentativas de silenciar uma sala de quarenta alunos de dez anos que falam gritando provaram-se absolutamente frívolas. Minhas faces à época morenas (acreditem ou não, mas eu amava ir à praia) encontravam-se coradas de tanto esforço, e o suor provavelmente já havia grudado os meus cachos rebeldes à minha nuca. Virando-se para ver a reação da educadora perante todo aquele tumulto, assustei-me com a serenidade que dominava seu semblante. Ela nem mesmo se movia, parada em pé diante da sala. Recostada à parede, esperava pacientemente pelo silêncio dos meus colegas.
       Após alguns minutos, notou o meu olhar de desentendimento e deu um sorrisinho, mas voltou a olhar pra sala e aguardar pelo fim da bagunça.
       Não demorou muito. Os risos pararam repentinamente, os olhares tornaram-se amedrontados, as bocas se fecharam com uma rapidez surpreendente. Eu, parada no meio da sala, olhava da professora para os meus colegas como quem questiona a existência de bruxaria em uma escola católica. A calmaria não substituiu a animação, mas sim a tensão, sua amiga íntima. Abobalhada, voltei para minha cadeira, e encarei a professora. A única diferença é que eu era provavelmente a única da sala que não estampava no rosto uma expressão de medo, e sim de confusão.
       E bem naquele momento, como se despertada pelo silêncio, a professora deu sinal de vida. Descruzando os braços, um sorriso desdenhoso deu lugar à expressão sem vida e pronunciou as palavras que me acompanhariam por anos a fim, sempre me fazendo questionar o meu modo de liderança e minha forma de viver a vida em geral: “Quem quer silêncio, faz silêncio.”

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