Genética

 

Foto tirada por mamãe na semana santa deste ano, última vez que vi Vovó Dulce.
Foto tirada por mamãe na semana santa deste ano, última vez que vi Vovó Dulce.

Ontem foi o aniversário da minha bisavó. Ela fez noventa anos. Quase um século de histórias, de conhecimentos, de anedotas. Eu não conheço um quinto do que ela viveu. Duvido que alguém conheça metade.

Eu fui uma criança muito estranha, isso não posso negar. Entre as coisas que me preocupavam, constava na lista o fim do mundo, para onde as pessoas vão depois de morrer – e de onde elas vêm antes de nascerem – e por que eu não tive a oportunidade de conhecer minha avó. Não, minha avó não morreu antes de eu nascer. Ela veio a falecer somente em 2010, quando eu já tinha doze anos e passara esse tempo todo amargurada com os deuses por não terem me dado a oportunidade de conversar com ela.

Minha avó tinha alzheimer. E se quando eu era criança ela ainda falava e andava, eu não me lembrava, porque eu só tinha uma única lembrança daqueles tempos. Tudo depois era ela deitada numa cama, sem reconhecer ninguém, sem conseguir se levantar sem ajuda, não sendo capaz de falar uma única palavra.

Nos dias bons, quando ia visita-la, eu lia para ela. Pegava um banco, puxava para perto da sua poltrona e lia as histórias que eu mais amava, porque eu tinha certeza que ela podia me escutar, e tinha certeza que ela sabia, no fundo da mente ou do coração, quem eu era.

Nos dias ruins, eu não entrava no seu quarto. Porque doía. Ainda hoje, neste momento, dói lembrar. E a certeza sumia debaixo dos cachos brancos que colavam na sua testa e eu afastava com tanta delicadeza antes de repousar um beijo na sua testa, e às vezes uma lágrima caia. E eu queria minha avó de volta. Eu queria minha avó, ponto. Não queria fantasmas do passado, sombras, memórias do que ela um dia fora, casos contados na mesa de almoço, olhos arregalados de familiares distantes que diziam que eu parecia, agia como ela. Eu não queria ouvir sobre como ela era, como se vestia, como falava. Queria ver tudo aquilo. O que eu fizera pra ser a única da família que não teve a oportunidade de conhece-la?

Algumas noites eu chorava silenciosamente, assustada com a possibilidade dela e de tia Elza, sua irmã (outra que eu não conheci) não gostarem de mim se tivessem tido a oportunidade de me conhecer. Chorava por que a pergunta era infantil e desnecessária, nunca saberia a resposta – ou sempre saberia, eu era sua neta, é óbvio que ela me amaria. Mas tudo o que eu queria era cozinhar e cantar pela cozinha com ela, ouvi-la dizer o meu nome, escutar suas história, até mesmo rezar, algo que nunca amei muito fazer, tudo porque daria o mundo pra ouvir sua voz sem ser gemendo de dor.

Minha bisavó é mãe da minha outra avó, a que tive o prazer de conhecer. E eu agradeço a Deus todos os dias por ter uma mulher tão forte, tão linda e tão inspiradora na minha vida. Agradeço por Ele ter me dado a oportunidade de te-la como exemplo de vida. Acho que uma mulher forte – três, na verdade, se contar com minha mãe e minha tia – era demais. Era inspiração demais.

Ainda assim, todos os dias, enquanto viver e enquanto a memória das mulheres fortes da minha família persistir em meus pais, no meu irmão, nos meus tios, sei que vou tê-las dentro de mim. Não só nos meus genes, não só nas covinhas que aparecem quando sorrio, mas nas pequenas ações que devo ter herdado sem nem saber.

Porque eu sempre dancei e cantei enquanto cozinho. Porque eu sempre tive facilidades em aprender línguas. Porque eu consigo falar sobre todos os aspectos da vida humana sem ficar envergonhada. E isso eu devo a elas.

Feliz aniversário, bisa. Obrigada por existir. Te amo.

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2 comentários em “Genética

  1. Oh minha querida Bárbara quanta sensibilidade em um pequeno texto. Adoro ler tudo o que você escreve. Vamos divulgar e espalhar o amor entre as famílias, amigos….Segundo o poeta “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.

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