QUEM NOS ESPERA LÁ FORA – PARTE 1

“É matemática simples, por favor não me faça questionar o seu PhD” ela me disse, revirando os olhos. Seu cabelo acobreado, preso em um coque mal-feito, escapava em mechas que caiam sobre suas feições morenas. Ela não parecia perceber, ou se percebia, com certeza não se importava. Seus dedos corriam ligeiros por sobre o teclado metálico do computador que era maior do que nós dois juntos, a testa franzida em concentração.

“Você sabe que eu sou formado em letras, não é?” Questionei, e pude sentir seu revirar de olhos, apesar de não ver o gesto.

“Irrelevante” resmungou, seus dedos ainda numa dança ininterrupta, que só fazia sentido para ela. “Todos deveriam entender o que estou fazendo” esse murmuro saiu com um tom em parte prepotente, em parte cheio de angústia, e eu segurei a gargalhada que ameaçou subir pela minha garganta ao ver a representação de toda a personalidade de Ava nas divergentes entonações de uma única frase.

“Mas aí não precisaríamos de você no grupo, não é mesmo? E que tragédia seria isso!” eu brinquei, e permiti-me rir ao ver o rubor rosado que cobriu seu rosto pelo elogio inesperado.

“Eu deveria formar o meu próprio grupo” ela resmungou, sua atenção ainda nas teclas em sua frente, e foi minha vez de revirar os olhos.

“Você não seria capaz de nos abandonar, a maior diversão que você conhece é explicar conceitos complexos para nós, meros mortais” o lado da boca dela se ergueu, o mais próximo de um sorriso que eu seria capaz de obter.

“Eu sinto que é a minha obrigação, afinal… Não quero viver para sempre em um mundo de medíocres” foi a minha vez de revirar os olhos, e considerando que o relógio não parecia se importar com a nossa pressa e continuava a marchar com a mesma rapidez, não pude evitar a pergunta que escapou os meus lábios.

“Falta muito?” Em dias normais, duvido que Ava teria me deixado permanecer no laboratório. Eu compreendia perfeitamente, no fim do dia, ela ainda era humana, mas a situação era crítica. E como ela tinha pleno conhecimento disso, não obtive nenhuma reação sua, o que considerei uma vitória para a minha dignidade, considerando as últimas vezes em que ela tinha expulsado membros da equipe, aos gritos.

De repente sua voz interrompeu meus pensamentos, tão suave que nem parecia a mulher ao meu lado, que preenchia todos os sentidos dos recintos onde ela entrava. “Confirmado”. A palavra me pareceu estrangeira, apesar de eu ser formado no estudo daquela mesma língua com a qual nos comunicávamos.

“Como?” tive de pedi-la para repetir.

“Confirmado” a palavra permaneceu no ar, nos assombrando. Uma parte da minha mente conseguiu registrar a entrada do resto do grupo, pelo barulho que eles sempre faziam quando estavam todos reunidos.

“Que cara é essa, Kade?” ouvi a voz sempre animada de Dayton chegar até os meus ouvidos, mas ainda não conseguia sair da minha cabeça, que tentava processar as implicações do que tinha ouvido.

“Pessoal?” a voz firme de Chausiku conseguiu me despertar, e dando uma última olhada para Ava antes de comunicar oficialmente ao resto do grupo, acenei com a cabeça em sua direção, esperando conseguir transmitir uma calma e confiança que eu na verdade não sentia.

“Ava terminou de processar o resultado daquele detrito que encontramos e… definitivamente não é terráqueo.”

 

 

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