As muitas mortes em vida – #ManiaDeCrítica – “A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D’ÁGUA”, de Jorge Amado

Minha edição de “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” me foi presenteada por minha mãe, quando da nossa primeira viagem a minha tão adorada Bahia. No dia 7 de janeiro de 2009, portanto, há quase onze anos, tivemos a alegria de visitar a casa de Jorge Amado, escritor que desde os meus então dez anos representa o melhor que o Brasil tem a oferecer.

Claro, Machado de Assis é um clássico e Euclides da Cunha, citado em todo exame pro vestibular. Mas talvez vítimas de seus tempos, não tiveram a oportunidade de representar certas facetas tão caras à imagem brasileira que infelizmente se perderam em sua tradução ao exterior. Claro que gostamos de relaxar após um dia na labuta, não quer dizer que sejamos preguiçosos. Claro que um golinho de pinga anima a alma, faz querer dançar e cantar até o mais tímido dos conhecidos, não quer dizer que sejamos (todos) alcoólatras. Claro que amar, em sua maneira mais expressivamente carnal, é algo delicioso e como tal, não poderia deixar de ser celebrado por um povo tão acostumado a festejar as pequenas coisas. Contudo, não somos exclusivamente trabalhadores do sexo.

Jorge Amado representa, em meu imaginário pessoal, essa vivacidade baiana que eu transponho ao Brasil como um todo, talvez por amar tanto Salvador e arredores. Infelizmente, ainda só tive a oportunidade de ler este livro que aqui proponho a divulgar, mas não por falta de vontade. Na verdade, o fato de eu ter ficado com esse souvenir da minha viagem à Bahia foi um mero acaso, mas do melhor tipo de acaso, aquele ao qual serei sempre eternamente grata.

Quando questionada acerca de qual livro gostaria de receber de presente, minhas duas escolhas eram “Gabriela Cravo e Canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Alguém que já tenha tido a sorte de se familiarizar ao menos com a temática dos dois romances deve entender o porquê da relutância tanto do vendedor, quanto da minha mãe e da minha tia, que me acompanhavam, a presentear uma criança de dez anos de idade com tais novelas. Indignada, por me achar, ao menos no sentido literário, extremamente adulta, tive de escolher entre o velho Quincas e “Capitães de Areia”.

Não me perguntem. Não sei porque cargas d’água escolhi o primeiro, mas o que se tornou a minha leitura da viagem me acompanhou até a maioridade na compreensão e admiração da cultura nordestina. “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água” é um livro quase relato oral de mais um causo fantástico da vida noturna soteropolitana. Sentimos que o autor está nos presenteando com uma estória por ele mesmo prestigiada, enquanto estamos ambos, leitor e escritor, reunidos em torno de uma fictícia fogueira, ouvindo a lenha crepitar e o vento uivar com o cair da noite.

A escrita é uma das melhores partes da obra não somente por isso, mas também por ser capaz de nos demonstrar como uma situação tão peculiar provoca confusão na percepção individual de cada uma das testemunhas oculares do feito. Mais ainda: Jorge Amado é capaz de nos fazer entender todos os níveis que existem em uma mesma conversa. A superficial, qual seja, a que está verdadeiramente sendo dita. A particular, aquela que o interlocutor gostaria de estar dizendo. A receptada, a que o ouvinte efetivamente compreendeu.

Não é difícil entender os motivos que levam cada um dos personagens a serem o que são, mas é impossível odiar quem quer que seja, por mais “antagônico” que pareça. O próprio Quincas, ou Joaquim, não é representado de maneira maniqueísta o suficiente para ser visto como o herói que as lendas devem relatar, mas somos capazes de alcançar o percurso que o elevou até este altar da boca do povo e até mesmo desejar ter tido a sorte de conhecê-lo e talvez compartilhar umas doses em mesas de bar.

É impressionante perceber a genialidade de Jorge Amado ao nos demonstrar não só as diversas visões de um mesmo fato, mas também o fato tal como ele se passou, sem nos entediar ou confundir. É revigorante ler a respeito de alguém que, após uma vida de supressão, limitação e morte – uma espécie peculiar de morte, a do espírito em corpo vivo – resolve quebrar suas amarras, autoimpostas ou forçadas, e viver a vida que deseja, efetivamente ressuscitando um espírito que não deixa de viver quando o coração para de bater.

Estas são as muitas mortes de Quincas Berro d’Água, que morreu muito mais do que duas vezes, como o título sugere. De fato, morreu em algum momento não definido, ainda Joaquim, para depois assassinar essa sua versão e dar origem ao amado Quincas, que, um dia, sucumbe à velhice, mas não deixa de habitar o coração daqueles que o conheceram, nem o imaginário daqueles que leram a seu respeito.

Espero um dia ter também a sorte de, quando meu coração deixar de bater, sobreviver na mente daqueles a quem, de alguma maneira, deixei o que havia de melhor em mim.

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