Publicado em Crônicas, O que danado for

O dia em que o Morro do Careca queimou

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Quando eu estou enfrentando uma fase particularmente difícil de uma crise de ansiedade, minha mãe costuma dizer que meu problema é sede de viver.

Hoje, mais do que nunca, eu gostaria de gritar aos céus que ela tem a mais absoluta razão.

Eu tenho sede de viver

Porque a Constituição me assegura a liberdade de ir e vir, mas eu nasci em um apartamento onde havia grades na varanda, e eu não podia brincar no beco sozinha.

Nunca pude ir comprar pão sozinha

Hoje minha cidade queima em dezenas de lugares diferentes, e quem chora a dor sou eu, porque nunca pensei que veria, em minha vida, um nascer de sol trazer tanta tristeza e desolação

Isso não é vida. É prisão, é repressão, é guerra

E se um dia eu escrevi que minha geração não sabia pelo que lutar, menti. A gente só não sabe por onde começar.

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Se for para me apaixonar…

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Preciso encontrar alguém que se apaixone pela vida, por tudo da vida, como eu me apaixono, constantemente, o tempo todo, por tudo, por nada, por cada segundo e cada tijolo.

Preciso de alguém que não se irrite se eu chorar inconsolavelmente às três da matina, porque há milhões de pessoas que eu nunca conseguirei ajudar.

Preciso de alguém que receba meus abraços sempre com o mais sincero entusiasmo, porque gosta de sentir a minha energia ao seu redor, porque gosta do meu calor contra o seu, porque sabe que meus abraços são genuínos e sem eles, eu não sou eu.

Preciso de alguém que me ame quando eu não consigo me encarar no espelho, o que, infelizmente, devo admitir que ocorre com mais frequência do que aceito reconhecer.

Ou, pelo menos, encontrar alguém que não se assuste com o meu coração voluptuoso, fogoso, que inflama repentinamente, mas cujas chamas são perpétuas, e me deixe falar sobre cada detalhe de um musical trezentas vezes sem se cansar, mesmo que não ache interessante o tema em si, mas porque ME acha interessante.

Preciso de alguém que não se assuste com o amor à primeira vista, mas, de preferência, alguém que simplesmente ame a vida, como eu.

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Essa sou eu

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Você não sentirá o sal das minhas lágrimas.
Não te darei esse prazer.
Você não sentirá o metal do meu sangue nos seus lábios.
Suas palavras, por mais afiadas que sejam, não podem me perfurar.
Sou feita de espelho.
E o que quer que você veja de errado em mim
diz mais sobre você do que sobre a “delicada” aqui.
Afinal, sou mais do que a minha pele
meus ossos
meu DNA
Sou papel
Caneta
A letra da minha mãe no diário de maternidade
Sou as memórias de tardes chuvosas embalada nos braços do meu pai
Sou as memórias de todos os pôr-do-sol de dezoito anos vividos
Sou a memória de todos as estrelas que já existiram
E a roseira de estimação da minha avó
Sou poeira
e estrela
sou caminho
e fim de estrada
Sou tudo
sou nada
E ninguém vai me fazer esquecer
o que acreditaram haver de bom em mim

 

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O Melhor Dia da Minha Vida

Slavia me contou que considerava livros paradidáticos como livros chatos, e foi com muita relutância que resolveu dar uma olhada no meu na noite anterior à minha visita a sua sala – dois anos atrás, quem estava ali, encarando a pessoa que se movimentava no tablado, era eu.

Tive um flashback momentâneo da minha chegada eufórica à Aliança Francesa, no dia em que terminara “Os Miseráveis” trinta minutos antes do meu pai chegar para me pegar, a versão resumida, claro. Eu mesma esperara odiar a história com a mesma força que odiara “O Cortiço”, que tinha sido obrigada a ler antes. Aquela história, contudo, foi diferente: tocou partes da minha alma que eu não sabia ansiar por calor literário. Foi o dia em que eu descobri que os livros escolhidos pelos meus professores de português nem sempre eram maçantes.

Slavia me disse que não pretendia ler mais do que dois textos do Sindicato – meu segundo livro – , mas que se viu absorta por aquelas palavras que, pelo que entendi, poderiam ter sido escritas por ela.

Eu disse que foram escritas para ela.

Tudo o que sempre quis, desde que comecei a escrever, foi consolar e acalmar corações ansiosos como o meu, corações que sonhavam em conhecer lugares reais, lugares imaginários, lugares internos. Corações desolados pela solidão de estar rodeado de pessoas e não se sentir completo. Corações confusos que pensam que seu boletim é um extrato real do que há em seus cérebros. Tudo o que eu sempre quis era ser um ombro amigo para os amigos que eu ainda não conhecia, e para aqueles que eu já conhecia e não podia, por algum motivo, consolar.

Ontem, pela primeira vez, eu senti que meu sonho estava se concretizando. Ver meu livro nas mãos de alunos, na escola em que eu mesma um dia estudei, ouvir suas perguntas, ouvir suas opiniões e textos preferidos… Se morresse hoje, morreria feliz.

Obrigada a todos e todas que fizeram esse dia ser tão mágico! O Ciências, a professora Jéssica, a coordenadora Alessandra, a psicóloga Alexandra, Slavia, Pedro, Maria Antonia, Vitor, Nathalia, Ana Lidia, Letícia e todos os outros que se eu fosse citar, se tornaria uma lista de chamada. Vocês sempre terão um cantinho reservado no meu coração!

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“O BRASIL É UM LIXO” ou a minha carta aos demais membros da geração Y.

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Caríssimos,
Convivo diariamente com outros membros da geração Y, apesar de ser a mais nova entre eles. Ontem, tive a oportunidade de ensinar sobre um assunto pelo qual sou muito apaixonada para alguns representantes um pouco mais jovens da minha geração, que já nasceram nesse novo século. Então, perdoem-me se pareço prepotente, mas acho que tenho o direito de falar o que sinto sobre meus companheiros de vida, porque espero com eles conviver por longos anos, ainda.
Desde pequena, sempre me incomodei com a falta de patriotismo dos membros do nosso país, e aqui cutuco também aqueles nascidos antes da década de noventa. A frase mais comum aos meus ouvidos é “pretendo sair desse país”, em todas as possíveis formas variantes. Então essa é uma idéia que não só me é comum, como inclusive, até hoje, é uma com a qual me identifico. Eu realmente pretendo sair do meu país, um dia. Mas, ao contrário do que vejo ao meu redor, não é por vergonha ou decepção com a Pátria. Quero sair daqui porque, infelizmente ou felizmente, existem outros lugares com muito mais a me ensinar, e eu encontro-me em um momento de sede de conhecimento, embevecida por civilizações muito mais antigas que a minha, e por oportunidades que por enquanto, esse país não pode me oferecer.
Contudo, longe de mim ter vergonha do Brasil. Aliás, minto: tenho sim, tenho vergonha de algumas escolhas que tomamos, porque errar não é algo de que eu consiga sentir orgulho. Mas não quero fugir daqui, não quero ir embora porque é mais fácil sair do que lidar com a bagunça que deixaram pra minha geração limpar.
Olha, eu entendo. É muito difícil, pra não dizer chato, ter que arcar com as consequências de escolhas que não foram nossas. Por que limpar a casa após uma festa ter dado errado se não fomos nós quem propusemos o encontro? Se não foi por nossa causa que a besteira aconteceu?
Por que ficar pra trás e reorganizar um Estado quando não fomos nós que votamos pelos representantes que bagunçaram tudo?
O que me preocupa é que o sentimento que permeia meus colegas não é esse, mas um muito diferente. É a desesperança. Não é que eles estão procrastinando ter de servir de faxineira e depois de construtor, pra pegar os caquinhos do país que um dia quase foi algo e depois ter de começar tudo de novo, de uma maneira nova, é que eles acham que isso não é mais possível. Eles aprenderam com as gerações passadas todas as maneiras em que já foi tentado mudar a nação (mudar o mundo), e agora não vêem mais nenhuma opção. Somos uma geração derrotista, que já nasceu com os ombros caídos, curvados sob o peso de um fracasso que não nos pertence, mas que nos assombra e impede que tentemos, mesmo que cegamente, sair do fundo do poço.
Sim, eu disse cegamente. Sim, eu reconheço que não temos – pelo menos por enquanto – soluções viáveis. Mas isso não significa que devemos sentar no chão, cruzar os braços e olhar pra baixo, mal dizendo todos aqueles que vieram antes da gente por terem tentado tudo e não nos deixado nenhuma opção. Qualquer ação é melhor do que não agir. É melhor se levantar e gritar, pular, tentar escalar, mesmo sabendo que vamos cair de novo. É melhor refazer os planos, tentar novamente o que já foi tentado, do que ficar chapinhando na lama. Sabe por quê? Porque a nossa missão de vida não é desistir e nos tornarmos um novo tipo de geração perdida, só pela falta de planos de saída. Nossa missão é muito mais importante (penso eu) que qualquer outra: é hora de criar novos esquemas!
Sei que isso significa que não viveremos para ver os frutos das nossas ideias, que viveremos em um Brasil destruído – em um mundo destruído – mas, qual é a outra alternativa? É melhor oferecer às gerações futuras a possibilidade de ver o céu novamente do que criar uma nova camada de lama. Posso soar romântica ou utópica, prometo inclusive que sou pelo menos um dos dois, mas é melhor acreditar que conseguiremos melhorar o nosso país, melhorar o nosso mundo, acabar com o trabalho escravo, com a fome, com as guerras, conseguir a alfabetização universal, a igualdade dos sexos e morrer tentando do que não tentar por acreditar que o fracasso nos perseguirá, como fantasmas dos nossos antepassados.
Eu acho que devemos isso às gerações futuras. Devemos tentar.

Todos os dias, coloco minha armadura de guerra e vou à luta. Espero te ver do meu lado na batalha em breve!

Com amor,

Bárbara.